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CRÓNICA #04 DA - Em louvor do campo – que regresso a que mundo rural em tempos de crise? E que consequências?

Sexta-feira, 26.04.13

Nos últimos dois anos, temos frequentemente escutado, por parte dos governantes nacionais, inúmeros discursos em louvor do campo. Estes têm enfatizado tanto a necessidade de revitalizar uma parte do território que fomos perdendo e desqualificando, paradoxalmente devido à negligência política, como impelido os jovens a regressar à atividade agrícola, apresentada quase sempre como dura, mas digna e nobre, numa altura em que se reduzem os apoios no âmbito da Política Agrícola Comum e em que não existe (uma vez mais devido à negligência política) uma estratégia nacional para o desenvolvimento da agricultura e do mundo rural.

É fácil inscrever tais discursos em outras ideologias de um passado ainda (lamentavelmente) recente – o conservadorismo ruralista de Salazar e do Estado Novo. É fácil também conotar tais discursos com os tempos de miséria económica e social que a vida no campo representava e que as gerações mais idosas ainda carregam seguramente no corpo e na memória. Apesar disso, tais discursos merecem alguma reflexão, sobretudo por parte de quem planeia o território, pelas oportunidades e pelos constrangimentos que poderão representar, numa época de crise e num mundo rural estruturalmente em crise.

A chamada crise do mundo rural é antiga, em muitas regiões periféricas da Europa, em particular nos países do sul. Esta crise tem sido marcada por uma progressiva dissociação do rural da agricultura, sobretudo evidente nos quase 50% do território nacional que pode ser classificado como rural de baixa densidade. Neste, a atividade agrícola assume um papel económico muito residual e um papel social e de manutenção das paisagens ainda relevante, sobretudo para suprir as necessidades de recreio e lazer da população urbana. Neste, a crise é também de identidade, marcada por perdas populacionais dramáticas e, surpreendentemente, ainda em curso, pelo envelhecimento da população, pela fragilização das estruturas e dinâmicas sociais, pela desestruturação da sua base económica (este rural já não é agrícola, mas ainda não é outra coisa) e pelas crescentes perdas em termos de serviços e equipamentos. Ao mesmo tempo, nas últimas duas ou três décadas, este rural adquiriu novas funções e conheceu uma nova valorização, social e institucional. De lugar de produção passou a lugar de consumo, a lugar que cada vez mais parece encontrar a sua razão de ser nas funções de recreio e de lazer.

No atual cenário de crise global vale a pena também refletir nisto: nesta passagem da produção ao consumo e deste, atualmente e pelo menos nos discursos dos nossos governantes, novamente à produção. Ainda vamos a tempo de recuperar o que fomos desconstruindo? A crise do mundo rural parece poder acentuar-se no quadro da crise financeira e económica mais global, por um lado, porque se trata de um mundo que é cada vez menos rural e cada vez mais construído para os urbanos; por outro lado, porque as áreas mais remotas verão a sua degradação e o seu abandono acentuar-se; finalmente, porque são hoje menores os apoios em termos de estratégias e medidas para o seu desenvolvimento. Bastará o recente louvor do campo para reverter estas tendências?

Em Portugal, não é possível, pelo menos para já, saber quantas pessoas estão efetivamente a regressar ao campo em consequência direta da crise que atravessamos. No entanto, apesar de parecerem ainda residuais, estes movimentos de retorno parecem caracterizar-se por uma grande diversidade. Assim, aparentemente, diferentes pessoas regressam a diferentes áreas rurais, por razões também diferentes. Por um lado, encontramos os urbanos, com maiores recursos financeiros e escolares, que regressam para empreender um novo estilo de vida (e.g. os Novos Povoadores) e novas atividades, frequentemente dirigidas a outros urbanos. Regressam tendencialmente a áreas menos marginalizadas, onde a agricultura apresenta ainda alguma viabilidade, onde a procura turística é uma certeza, onde existem ainda serviços e equipamentos, onde a acessibilidade não é um problema. Desenvolvem atividades relacionadas com o turismo, os produtos agrícolas ‘de qualidade’ e o artesanato ‘de design’.

Por outro lado, encontramos os urbanos menos escolarizados, sem recursos económicos, que ficaram desempregados e procuram nas antigas explorações agrícolas familiares uma garantia de subsistência. Regressam com muita frequência às áreas mais remotas, as mesmas de onde saíram pelas difíceis condições de vida, nos anos 50 e 60, os seus avós ou os seus pais. Regressam sem recursos e excluídos a um mundo rural ele mesmo excluído e marginalizado, onde parece faltar tudo, mesmo os serviços e equipamentos mais básicos. Este regresso representa um retorno a uma atividade agrícola de subsistência, pobre e não subvencionada. Um regresso ao tal passado que enforma alguns discursos políticos de hoje – ser pobrezinho, mas honrado, praticando em duras condições uma atividade sem futuro, num território esquecido.

Diante destes dois cenários (e tendo presente que existirão outros), vale a pena refletir sobre algumas questões comuns: quantas destas pessoas e quantas destas atividades poderão as áreas rurais nacionais efetivamente suportar? Quantas destas pessoas efetivamente se fixarão nestas áreas, quando e se a crise passar e outras oportunidades surgirem nas cidades? Talvez fosse importante pensar nisto antes de louvar o campo e no sentido de encontrar estratégias (finalmente) eficazes de o desenvolver.

 


Elisabete Figueiredo, socióloga, professora auxiliar no Departamento de Ciências Sociais Políticas e do Território da Universidade de Aveiro, coordenadora do projeto RURAL MATTERS – Significados do Rural em Portugal – entre as representações sociais, os consumos e as estratégias de desenvolvimento (PTDC/CS-GEO/117967/2010) (elisa@ua.pt)

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